Daniel dos Santos do assentamento PA Assurini, em Altamira durante aula de produção de hortaliças na Transamazônica. (Foto: Diário do Pará)
Daniel dos Santos do assentamento PA Assurini, em Altamira durante aula de produção de hortaliças na Transamazônica. (Foto: Diário do Pará)
Daniel dos Santos do assentamento PA Assurini, em Altamira durante aula de produção de hortaliças na Transamazônica. (Foto: Diário do Pará)

À medida que os pneus avançam sobre o chão de terra avermelhada, o cenário que se forma entre a inevitável cortina de poeira é o relato vivo das mudanças que vêm acontecendo em lotes do assentamento PDS Esperança, zona rural do município de Anapu. Antes repartidas nas mãos de particulares, depois reavidas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), as terras de origem pública têm a realidade modificada pelo trabalho dos assentados e da assistência técnica oferecida.

Oriundo do município vizinho de Medicilândia, a realidade que chegava aos olhos do produtor Valdeir Oliveira Rodrigues assim que ele se juntou ao assentamento era a de grandes descampados de terra. Sem praticamente nenhuma árvore, lotes de terreno tinham sobre a superfície nada além do capim plantado para a formação de pasto pelos antigos detentores do direito de uso. Muito difícil de ser vencido pelas próprias características da planta, foi preciso muito esforço para que o capim, aos poucos, cedesse espaço aos pés de cacau, mamão e o que mais fosse possível cultivar. “Chegava aqui e tudo isso aqui era capim, só capim”, aponta para a expressiva plantação de cacau. “Aqui tanto cacau quanto reflorestamento é bom.

A terra convida você a trabalhar”. Acompanhado de outros cinco migrantes seis anos atrás, Valdeir foi o único, na época, a não desistir. Acompanhado de perto hoje pela assistência técnica que lhe permitiu melhorar a tecnologia empregada, a subsistência da família é garantida apenas com a produção desenvolvida nos 20 hectares disponíveis – dentro do limite legal de 20% – para o uso alternativo do solo. “O capim é assim. Se roçar ele, com dez dias já tá grande de novo. Foi difícil vencer. Quando começa a chover, vem de novo, mas a gente vai juntando na mão”, explica o cuidado que tem com a plantação de 2.400 pés de cacau. “Tá com quatro anos que plantou e hoje a gente tira 90, 100 quilos na safra. Quando a plantação estiver com dez anos pra frente, vai dar pra tirar uma safra de dois, três mil quilos”.

ASSISTÊNCIA

A assistência que permite que Valdeir sobreviva da própria produção no PDS Esperança é estendida a todos os assentamentos federais de Anapu desde a contratação feita pelo Incra através de licitação. A iniciativa simples não apenas presta auxílio aos assentados, mas também proporciona o desenvolvimento de atividades com menor impacto ao meio ambiente e que promovem a conservação da floresta. Sem que praticamente nenhuma cultura fosse produzida a ponto de garantir a subsistência das famílias, até o ano de 2012 os assentados do PDS Virola Jatobá, também em Anapu, tinham apenas o manejo da madeira como fonte de renda. Tendo o direito de atuar no assentamento anos atrás, a atividade da empresa responsável pelo manejo se restringia a retirar a madeira e pagar aos assentados sem que os mesmos fizessem parte do processo.

Realidade muito diferente do trabalho desenvolvido hoje, onde os moradores são os responsáveis por fazer o manejo de outros produtos florestais. “O Virola Jatobá era um assentamento que vivia de um manejo florestal empresarial travestido de manejo comunitário. Em 2012, a gente notificou a empresa de que ela teria que cessar a exploração. A empresa saiu e aí aconteceu uma crise no assentamento porque praticamente a única atividade econômica que existia era essa [o manejo da madeira]”, relembra o coordenador do Posto Avançado do Incra em Anapu, Fagner Garcia. “No mesmo ano, a gente contratou através de licitação a assistência técnica e o desafio era começar do zero. Nos últimos dois anos, começaram a produzir alimento e a ver que o manejo não é apenas o madeireiro”.Muito além da madeira, o assentado Francisco de Lima Sousa vê no cultivo de mandioca, arroz, milho, açaí, abacaxi e feijão a garantia da renda própria.

Diante dos resultados cada vez mais positivos conquistados principalmente com a produção da mandioca e do açaí nativo, ele não esquece o trabalho desenvolvido anos atrás para que sua condição fosse modificada completamente. “Quando eu entrei aqui, tinha uma assistência de manejo de madeira, só que não era suficiente. Quando saiu, a gente ficou um pouco perdido, mas a gente foi pra agricultura e agora com essa assistência técnica estamos conseguindo nos manter”, recorda. “Foi um renascimento. A gente tomou um gás num caminho que parece que não vai mais se perder porque o que já deixaram para nós em conhecimento vai ficar”. Auxiliados constantemente pelos técnicos que atendem às 130 famílias assentadas no PDS, os produtores já estão longe de ver o manejo de madeira como atividade principal. “Com a assistência técnica eu cheguei a tirar 105 latas de açaí. Em 2015, eu quero chegar a 500 latas”, planeja, sem esconder o orgulho pelos açaizeiros nativos repletos de frutos. “O manejo do açaí é melhor que o florestal. Hoje eu sinto que o recurso tava todo aí, eu é que não tava sabendo usar.”

 

(Diário do Pará)

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