Senzala à céu aberto – Por Mizael Carvalho

Ao refletirmos sobre a temática carnavalesca numa dimensão social igualitária ao que acontecia na época da escravidão, em diversas ocasiões, é possível projetar um contexto de aceitação relacional onde um indivíduo (ou grupo de indivíduos) se submete às determinações de outrem, instantaneamente. O que foi a missão de um fazendeiro nos tempos do Brasil escravagista, transformou-se no papel do Estado na contemporaneidade: a única certeza do(a) trabalhador(a) é levar umas chicotadas nas costas, conquanto que tenham festas.

A sociedade escravista brasileira necessitava de mão de obra para a lavoura e a mineração, o que não difere dos meios de produção exigentes hoje. Os quatro séculos em que a escravidão existiu no Brasil, muitas rebeliões ocorreram, mas pouco se conhece sobre elas, já que nessa época as autoridades máximas eram os próprios senhores de escravos, e poucos deles registraram esses episódios. As questões banais do dia-a-dia de um escravocrata incluíam desenvolver os melhores métodos para evitar fugas, açoitar mulheres sem despertar a ira dos homens ou descobrir o que fazer com crianças que ainda não tinham idade para trabalhar.

Não divergente disso, apresenta-se o Estadista enquanto figura reguladora das engrenagens responsáveis pela movimentação diversificada das massas, pungente, promíscuo e soberano – como fora um escravocrata. Embora distantes, secularmente, comungam dos mesmos princípios e bases sólidas de comandante sobre seus comandados: à ferro e fogo. Ou seja, exímios cerceantes de poder para evitar aglomerações de descontentados, apoiam-se nos feitores e capatazes que ludibriam, acalentam e apaziguam qualquer possibilidade de rebelião, por intermédio de permissividade e motivação às festas e comemorações que possam desviar as atenções; aliviando dores, angústias, infortúnios, ainda que momentaneamente.

Contudo, épocas festivas são oportunos momentos para fugir da realidade por um tempo, mas de necessário retorno, como outrora faziam muitos escravos ao seu senhor em troca de melhores condições de vida, cientes dos açoites dolorosos. Entretanto, longe dos engenhos arcaicos – onde as festas e cultos expressavam a distração e insatisfação comunal -, o carnaval na contemporaneidade serve de analogia a um período obscuro da história do Brasil, que se apresenta mais vivo do que nunca na cultura do povo: conscientemente, subjugados libertos à espera da abolição, que demorou séculos para ser decretada, uma vez que a verdadeira conquista ainda não foi alcançada.

A expressividade cultural, destarte, ao mesmo tempo em que revigora a alma, oprime o corpo e a mente. Mas parece conveniente e uma troca justa entre os escravocratas, estadistas e seus comandados o incentivo aos festivais, onde possam cultuar e representar seus costumes, extravasar tudo aquilo que sofrem no decorrer de um longo período, em pequenos espaços de tempo, enquanto a casa grande reina. Afinal, não há como abrir mão das festanças e bonanças ofertadas como benesses merecidas aos que fazem os donos do negócio crescer, mesmo cientes de que, ao amanhecer, as chicotadas terão destino certo.

Que o carnaval de hoje se torne a capoeira de ontem, pois a senzala continua erguida, sem paredes, nem teto.

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