Democracia? Por Mizael Carvalho
(reprodução)

Nos últimos anos, tornou-se perceptível que só a união dos esclarecidos liberta os aprisionados da ignorância inócua numa sociedade. O Brasil é um país promissor, mas que nunca sairá do patamar de subdesenvolvimento enquanto o povo continuar exercendo, desprezivelmente, sua maior riqueza: a democracia.

A nação da diversidade, onde habitam diferentes etnias, que cultuam distintos credos numa relação desigual, divergentes para certos anseios, porém, convergentes quando se trata de equidade social. Mas a que custo? Quanto cada cidadão precisa contribuir? O que e de que abrir mão para colaborar com a plenitude da pátria emergente? Questionamentos indissociáveis da prática cotidiana de cada cidadão e cidadã brasileira. O livre arbítrio, direito de escolha, a autonomia, acaba por neutralizar a busca pelo bem comum. Afinal, o desejo pela mudança termina quando esbarra nas possibilidades de benfeitorias individuais do ser.

As oportunidades aparecem repentinamente e, para quem não tem nada, qualquer coisa serve. Ou seja, o desempregado pode ter seu emprego; aquela que estava com enfermo pode alcançar a saúde; o condenado poderá adquirir sua liberdade; com um simples telefonema do amigo de uma conhecida do patrão. Entretanto, há um custo por tais conquistas, que põe em xeque o caráter dos sujeitos envolvidos, destoando às pretensões iniciais dos solícitos a contribuir com a melhoria das relações sociais, econômicas e culturais de seu grupo. Isso destorce os anseios por desenvolvimento contínuo de uma sociedade emergente, uma vez que substitui o sentimento coletivo por gratidão individual, uma prisão sem fim, desencadeando um círculo vicioso de troca de favores.

O poder da escolha é o combustível para a democracia. Embora muitos ainda não compreendam esse dinamismo vertiginoso, mas inconscientemente abrem mão desta por tomada de decisão equivocada diante de situações momentâneas. Além disso, a praticidade dos benefícios rápidos, oferecidos em ocasiões de infortúnios, gera instabilidade emocional, suscitando o desejo imediato ao invés de promoções coletivas mais duradouras e sólidas. Esse movimento não mais comunga com valores grandiosos de cidadania, mas evidencia o extinto de sobrevivência inerente a cada pessoa, seja qual forem suas raízes, credos ou intuitos interiores, o sobreviver urge e ninguém o descarta facilmente. O bem maior transforma-se numa possibilidade líquida e certa, que não condiz com o viés democrático de nacionalismo e patriotismo fervoroso, antes evidenciado.

Enquanto o conceito de democracia não for atrelado ao direito de escolha e tomada de decisão de cada pertencente desta pátria, destarte, mais distante do caminho da moralidade, dignidade, equidade, estará uma nação que anseia pelo fim de alguns valores promíscuos e inaceitáveis, mas que não contribui condizente e coerentemente ao que pede, fazendo escolhas satisfatórias não só para si e seu grupo, mas ao país. O poder emana do povo, mas o povo não emana poder.