Dados apontam para desperdício no avanço da mineração, dos pastos e da agricultura (Ricardo Moraes / Reuters)

A repercussão mundial envolvendo as queimadas na Amazônia despertou uma preocupação generalizada com o futuro da floresta. O número de focos de incêndios na região é o maior dos últimos anos, o que justifica a repentina apreensão.

No entanto, o ritmo de devastação da floresta vem crescendo e não é de hoje. Só o estado do Pará, por exemplo, perdeu 14,3 milhões de hectares de cobertura natural, o equivalente a 135 vezes a área do município de Belém ou a mais de 20 milhões de campos de futebol entre os anos de 1985 e 2018.

Essa perda acompanhou o ritmo dos rebanhos, pois a abertura de pastos é o principal motor do desmatamento no Estado: no mesmo período, a área destinada à agropecuária teve um aumento de 13,9 milhões de hectares. Também para efeito de comparação, a floresta abriu espaço no Pará a uma área do tamanho da Inglaterra (13,03 ha) somente para a agricultura e pastagem.

No geral, as florestas do Pará recuaram de 113,5 milhões de hectares em 1985 para 99,1 milhões no ano passado, ou seja, uma queda de 12,6%. Já a agropecuária cresceu de 3,9 milhões de hectares para 17,8 milhões – uma alta impressionante de 348,7%.

Os dados, obtidos por satélites e geoprocessamento, foram apresentados na última semana pelo MapBiomas – um projeto colaborativo de universidades, empresas de tecnologia e ONGs para mapear e monitorar a cobertura e uso da terra no Brasil.

Em todo o País, o mapeamento mostra que, nestes 33 anos, 89 milhões de hectares de florestas nativas foram perdidas – de 587 milhões de hectares em 1985 para 505 milhões em 2018 (-14%). Essa área corresponde, exatamente, a duas vezes e meio a dimensão do território alemão.

Os outros tipos de vegetação, como campos naturais e mangues, passaram de 71 milhões de hectares para 64 milhões, o que representa uma diminuição de 9,85%. Na contramão desse movimento, a área destinada à atividade agropecuária passou de 174 milhões para 260 milhões – alta de 49%.

Mais de metade dessa perda, 47 milhões de hectares, ocorreu na Amazônia. De acordo com Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, de cada dez hectares desmatados na maior floresta tropical do mundo, três foram abandonados, seis viraram pasto e um se transformou em agricultura, mineração ou passou por um processo de urbanização. “É um retrato do desperdício e da degradação causada pelo desmatamento”, lamenta.

A abertura de pastagens tem se reduzido no resto do País desde 2005, segundo o MapBiomas, mas não na Amazônia Legal. Em 2005 havia 45 milhões de hectares de pastagens na região. Em 2018 essa área cresceu para 53 milhões de hectares. No Pará, houve um salto de 13,8 milhões para 16,5 milhões de hectares, uma alta de 2,8 milhões.

“A pastagem avança sobre a floresta, e a agricultura, sobre a pastagem. Mas, na Amazônia, a pastagem continua a crescer, com abandono de áreas e baixa produtividade. Temos cerca de uma vaca por hectare ou mata transformada em pasto do tamanho de um campo de futebol na Floresta Amazônica. É uma produtividade baixíssima e um péssimo uso da terra, reforça Azevedo.

Segundo o climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas do mundo em Amazônia, essa dinâmica é o método principal da pecuária na floresta. “A mata é queimada e ocupada por uma pecuária de baixa tecnologia, que não faz manejo de pasto. Os nutrientes vão todos embora e surgem problemas como erosão.

Depois, novas plantas começam a crescer, o produtor bota fogo de novo e recomeça o ciclo. Dez ou 11 anos depois, a maioria abandona essas terras e desmata novas áreas”, explica. Ainda de acordo com Nobre, essa prática pecuária, de baixíssimo rendimento, atende a outros interesses. “É um modelo de ocupação do espaço florestal na Amazônia que tem muito mais a ver com a posse de terra e outros valores culturais, em um modelo expansionista”, completa.

Fonte: O Liberal



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