Desde 2009, a eficácia do uso de plantas amazônicas no tratamento de picadas de serpente vem sendo investigada em uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). O projeto envolve diversos pesquisadores que, a partir de um levantamento etnobotânico feito nas comunidades de Cucurunã, São Pedro e Alter do Chão, em Santarém, no Oeste do Pará, elencaram as espécies vegetais mais utilizadas pela população para tratar os efeitos de picadas de serpentes peçonhentas.

Em junho deste ano, mais um resultado obtido a partir da pesquisa foi publicado. O artigo divulgado na revista Toxicon avaliou o potencial antiofídico da planta Philodendron megalophyllum, popularmente conhecida como cipó-de-tracuá, no tratamento de picadas de jararaca (Bothrops atrox), espécie de serpente responsável por mais de 95% dos acidentes na área do município de Santarém.

O envenenamento por este tipo de cobra causa reações locais como edema, dor, hemorragia, necrose e mionecrose (um tipo grave de gangrena, com necrose do músculo). Dependendo da gravidade, o acidente pode levar também a reações sistêmicas, principalmente problemas de coagulação sanguínea e hemorragia mais severa. Os moradores das comunidades na região de Santarém costumam tomar o chá feito com pedaços do caule do cipó-de-tracuá macerado logo após as picadas.

Os testes realizados in vitro e in vivo, com camundongos, nos laboratórios da Ufopa, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) mostraram que ingerir o chá, forma tradicionalmente adotada pela população local, não é eficaz para reduzir a hemorragia produzida pela picada do animal. No entanto, a ingestão do chá ajudou a bloquear a atividade de bactérias que passam da cavidade oral da serpente para o organismo da pessoa ferida e também se mostrou um bom antioxidante, podendo, após estudos adicionais, ser utilizado no tratamento complementar nas ações locais e infecções secundárias ocasionadas frequentemente pelos acidentes com serpentes do gênero Bothrops sp.

No Brasil, a maioria dos acidentes com serpentes peçonhentas notificados ao Ministério da Saúde ocorre na região Norte, sendo o Pará o Estado com maior número de casos. Dentre os municípios paraenses, Santarém tem o maior número de notificações, com uma média de 300 acidentes por ano.

O tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde é a aplicação de soro antiofídico. Mas esse tipo de acidente ocorre com maior frequência na zona rural e o deslocamento até a área urbana nem sempre é fácil ou rápido. “Muitas vezes os pacientes demoram até conseguir receber o tratamento específico. Isso pode levar ao aumento do número de complicações nos casos”, explica a pesquisadora, Valéria Mourão de Moura. É aí que entram as plantas medicinais, de fácil e rápida obtenção. “As plantas são usadas como coadjuvantes à soroterapia ou como medicamento alternativo aplicado na falta de recursos soroterápicos”, destaca.

O estudo com Philodendron megalophyllum faz parte de uma ampla pesquisa que investiga o potencial antiofídico de plantas amazônicas, e é fruto do trabalho de conclusão de curso da egressa do bacharelado em Biotecnologia da Ufopa, e agora doutoranda, Noranathan Guimarães.

Por Ascom Ufopa

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