Os casos de feminicídio aumentaram 118% no Pará. De janeiro a junho deste ano, foram 37 mulheres assassinadas. No mesmo período de 2019, 17 casos foram registrados.

O aumento acentuado da morte violenta de mulheres vai na contramão da queda de criminalidade registrada pelo estado no mesmo período: houve redução de 24% dos demais crimes violentos no primeiro semestre, de acordo com dados da Secretaria de Segurança do Pará (Segup).

Para especialistas em Direitos Humanos e Direitos da Mulher, o isolamento social motivado pela pandemia é um fator crucial para o aumento da violência doméstica.

Com o isolamento, os índices de violência doméstica e feminicídio têm aumentado no mundo – como as mulheres estão confinadas com seus agressores e distantes do ciclo social, riscos para elas são cada vez mais elevados.

Segundo pesquisadoras, o impacto no Brasil é aterrador, já que a taxa brasileira é de quatro mulheres mortas para cada 100 mil mulheres, 74% superior à média mundial: uma mulher morre a cada sete horas no Brasil vítima de feminicídio.

“A maioria dos casos de violência e abuso contra mulheres ocorre dentro de casa, no seio familiar. A vulnerabilidade neste momento de isolamento social é potencializada e fortalece a impunidade dos homens envolvidos no âmbito das relações abusivas”, diz Fátima Matos, do Centro de Estudo e Defesa do Negro.

“O isolamento social é uma realidade permanente na vida de mulheres em situação de vulnerabilidade. Com o coronavírus, essa prática se intensifica, na medida em que fica mais difícil ainda contar com a redes de apoio, quando esta é uma realidade, e coloca as mulheres numa situação permanente de perigo, em virtude do confinamento com o agressor”, diz Natasha Vasconcelos, presidente da Comissão da Mulher Advogada (OAB/PA).

Antes da pandemia, em novembro de 2019, a ONU Mulheres divulgou um relatório em que mostrava que uma em cada cinco mulheres havia sofrido violência física ou sexual dentro de casa nos 12 meses anteriores.

Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) reportou, também no ano passado, que uma em cada três mulheres sofreu violência física ou sexual.

Logo que as medidas de isolamento social foram decretadas, a ONU Mulheres divulgou um documento com 14 recomendações, que alertavam para a necessidade de políticas públicas adequadas e necessárias para minimizar om impacto da Covid-19 na vida de mulheres, que são mais vulneráveis socialmente.

No entanto, no Pará, a fragilidade do atendimento às mulheres se acentuou, o que culminou no aumento da violência doméstica, analisa Natasha Vasconcelos.

“Alguns serviços, inclusive de atendimento a mulheres em situação de violência, tiveram sua capacidade reduzida ou foram cancelados, também em função das medidas de isolamento. Isso explica que o fato de que em muitos estados de todos os indicadores de crimimalidade, o único que aumentou foi o crime de feminicídio, mesmo que os índices de violência contra mulher tenham tido uma queda nos registros oficiais”, destaca.

A falta de dados sobre raça e vulnerabilidade socioeconômica nos registros oficiais também torna ainda mais obscuro o entendimento a cerca da violência contra a mulher e, consequentemente, dificulta a promoção de políticas públicas e estratégias para a proteção efetiva dessas vítimas.

“Os serviços disponíveis na garantia da vida e integridade moral, patrimonial, física, sexual e psicológica das mulheres não têm sua efetividade contemplada. A baixa notificação, via quesito raça cor e gênero – inexistente na maioria dos municípios, impossibilita a eficácia no atendimento. Desconsiderar as desigualdades físico territoriais que aumentam os casos, é, ao mesmo tempo, tornar invisíveis o contexto das vítimas e o perfil dos culpados”, analisa Fátima Matos.

Denuncie

Para fazer denúncias sobre esses tipos de crimes e outros formas de violência, qualquer pessoa pode enviar mensagens para o Disque Denúncia, pelo número (91) 98115-9181, ou ligar para 181. Se precisar de atuação policial imediata, basta ligar para o Centro Integrado de Operações (Ciop) 190.

Mapa do feminicídio em Tailândia

De acordo com os dados da Segup, as localidades onde foram registrados o crime de feminicídio foram:

  • Janeiro: 8 casos, sendo 1 em Altamira, 2 em Cametá, 2 em Marituba, 1 em Muaná, 1 Santarém e 1 em Tailândia;
  • Fevereiro: 11 casos, sendo 1 em Água Azul do Norte, 1 em Brasil Novo, 2 em Breu Branco, 1 Cachoeira do Pará, 1 em Canaã dos Carajás, 1 em Marabá, 1 em Oriximiná, 1 em Parauapebas, 1 em São João de Pirabas, 1 em Tailândia.
  • Março: 4 casos, sendo 1 em Ananindeua, 1 em Belterra, 1 em Ourém, 1 em Ourilândia do Norte e 1 em Tomé-Açu.
  • Abril: 4 casos, sendo 1 em Ananindeua, 1 em Aurora do Pará, 1 em Canaã dos Carajás e 1 em Redenção.
  • Maio: 4 casos, sendo 1 em Benevides, 1 em Dom Elizeu, 1 em Itupiranga e 1 em Marabá.
  • Junho: 5 casos, sendo 1 em Conceição do Araguaia, 1 em Parauapebas, 1 em Redenção, 1 em Santa Maria das Barreiras e 1 em Tucumã.

Por G1

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