Judas do século XXI? Por Mizael Carvalho

Desde a crucificação de Cristo, no ano trinta e três (d.c), ocorre a troca de lados – opostos – por uma soma de trinta moedas ou um pouco mais do que isso, para trair seus mestres ou irmãos. Despreza-se amigos, família, categoria, grupo, princípios e convicções em detrimento do egocentrismo em “salvar sua pele”. Fortalecendo algozes e enfraquecendo toda coletividade que já é desarticulada pelo poder opressivo da burguesia assoberbada, que não cansa de subjugar os verdadeiros produtores do capital e dos saberes circulantes na sociedade.

O Evangelho apresenta o nome de Judas como sinônimo de traição. Embora, para muitas releituras recentes, o discípulo que traiu Jesus por trinta moedas e o conferiu às autoridades do Templo de Jerusalém seria o aprendiz predileto de Cristo, que o entregou a pedido deste, para que a profecia se cumprisse. Dessa maneira, o ato consumado fora de total consentimento, conhecimento e convicção das consequências posteriores à tomada de decisão por parte de Iscariotes, estando lúcido em suas atitudes e fiel ao que compreendia ser o correto a fazer, mesmo arrependendo-se depois e suicidando-se.

Atualmente, ainda é perceptível os discípulos de Judas nos mais diversos setores da convivência humana, pessoas comuns que “aceitam” a proposta remunerada para compactuar com a elite burguesa na crucificação de muitos cristos inocentes; Sujeitos que abdicam dos princípios morais, éticos e de boas índoles familiares construídas ao longo de sua formação enquanto cidadãos esclarecidos, livres e desimpedidos de obrigações ou fidelidade para com o opressor; Parece que mudar de lado, corroborar com a injustiça e ser desleal ao grupo pertencente valerá a pena por algumas trinta moedas ou algo mais.

Entretanto, há séculos do acontecimento bíblico e seus desenrolares, onde a possibilidade de reflexão nem era tão permissível e aceitável, o cenário hoje é totalmente avesso ao vivenciado por Jesus e os discípulos. A iminência do erro ou equívoco mostra-se conforme o caráter do ser, suas posturas e crenças naquilo que for mais conveniente para enaltecer seu próprio ego, caindo em tentação com muito mais facilidade do que Judas em outrora passagem, mesmo que lúcido e sabedor das consequências também. No entanto, diferente do aprendiz solícito à Cristo, os traidores da atualidade o fazem por puro prazer (ou falta) em ver o sofrimento de seus irmãos – por vezes dele próprio – diante das injustiças no descumprimento de muitos direitos conquistados, sendo inocentes perante os “soldados romanos” desta época.

Portanto, enquanto houver contribuintes da opressão burguesa dentro da coletividade trabalhadora e produtora dos bens de consumo, conhecimentos, culturas e saberes, estará presente a figura de Judas Iscariotes apoderado e pleno, mesmo que com característica, possibilidades de reflexão, objetivos e cenários antagônicos, mas na mesma missão e compromisso de trair os seus, colaborando com “Roma” e a crucificação de cristos inocentes por algumas trinta moedas. Pessoas comuns, infelizmente, movem-se por dinheiro e recompensas momentâneas, pessoas honestas o fazem por dignidade e proteção do justo. A liberdade para Judas foi a morte por arrependimento, mas a libertação dos traíras deste século estará calcado numa vida de desprezo interior, num egocentrismo decadente, profundo e desolador.

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