Escravo intelectual… Por Mizael Carvalho

No próximo dia treze de maio do corrente ano, dar-se-á o centésimo trigésimo “aniversário” da abolição da escravidão no Brasil. No entanto, ainda é perceptível o resquício da fragilidade de como foi instituída e o quão penoso foi superar as marcas deixadas após anos de submissão àqueles que detinham o poder, o controle e a propriedade. Impossibilitando qualquer forma de reivindicação que não fosse ao do “senhor”, condições ainda visível na sociedade, mais de um século depois.

A abolição, instituída por meio da Lei Áurea em treze de maio de mil oitocentos e oitenta e oito, assinada pela então princesa Isabel, concedeu liberdade a todos os escravos do país, após anos de crueldade e desumanidade vivenciada pelos negros advindos do continente africano.

A economia foi o principal fator que manteve a escravidão por um longo período, já que o Brasil contava somente com o trabalho escravo para realizar as tarefas da roça e outros serviços braçais. Cabe atentar, nesse sentido, que a dependência era mútua. Mas, que a reposição de mão de obra acontecia rapidamente e o descarte de trabalhadores dava-se livremente, pois não havia possibilidades de reivindicação, não existiam direitos que resguardava tais servidores, como assegurados hoje.

Sendo assim, no período escravocrata, a prática do trabalho ancorava-se nas obrigações para com os donos do poder, do lucro e da propriedade. Muitos dos escravos, mesmo tendo um ideário e pensamentos de liberdade, nada podiam fazer para mudar a situação na qual se encontravam, pois as condições de submissão os impediam de buscar a valorização das funções exercidas.

Após cento e vinte e nove anos desse triste cenário, observam-se posturas e atitudes parecidas, mas evidenciando maior flexibilidade e possibilidades de externar os ideais de liberdade e pensamentos de alforria intelectual, seja individual ou coletiva.

Muitos anos depois da abolição, a submissão aos donos do poder parece tangenciar o passado e retoma patamares eloquentes de subordinação a “um senhor”. Nota-se que, mesmo com a liberdade de escolher o lado apropriado para defender suas ideias e pontos de vistas, as pessoas continuam a omitir-se em troca de favores momentâneos, compactuando com a dominação dos detentores da máquina pública aquém dos direitos garantidos em leis. Entretanto, posturas nesse sentido acabam por impetrar prejuízos gigantescos no grupo ao qual fazem parte, quando não para toda a sociedade, desprestigiando seus companheiros e fortificando seu opressor.

Libertar-se das marcas do escravagismo é livrar-se das amarras da crueldade vivenciada em anos de desvalorização e falta de reconhecimento das atividades fundamentais que desempenham. É somente por meio da união de pensamentos e ideários de mudança que o coletivo prevalecerá em detrimento do individual, patronal e feudal.

Assim, o que é visível deve ser tomado como ponto de partida e por vezes referência, mas nem sempre como norte condizente às necessidades vislumbradas pelos que desejam ser isentos àqueles que detêm o poder e a propriedade. A obediência, conduzida sem criticidade e autonomia, torna-se prisão ao pensamento e às ordens do opressor, culminando com posturas antiquadas e retroagindo ao que já fora vivido e que requer fomentos progressistas e humanistas de superação à fragilidade deixada por longo período de intempéries e infortúnios suportados pelos escravos no Brasil.

Não é aceitável, após séculos de falta de decência e respeito com grande parte da sociedade, continuar aguentando “chibatadas” de um único patrão, tendo evoluído intelectual, cultural e socialmente. A escravidão de pessoas acabou com a abolição. O que resta é a escravidão de pensamentos, de posturas, de atitudes, cabendo cada indivíduo conduzir-se ou ser conduzido, sendo escravos de seu próprio intelecto ou do intelecto alheio.

Assine o Portal

Receba as últimas notícias de Tailândia e região.

Você pode gostar de ver