Brado retumbante! Por Mizael Carvalho
Acorda Brasil (imagem: reprodução)

O campeonato mundial de seleções, realizado de quatro em quatro anos pela FIFA e que desperta uma explosão de sentimentos nas pessoas, teve início no último dia quatorze – o país anfitrião desta edição é a Rússia. No caso do Brasil, coincidentemente, o evento acontece em ano eleitoral – escolha dos representantes do legislativo e executivo das esferas estaduais e federais – que provoca no povo brasileiro, ao mesmo tempo, o patriotismo sensorial e uma amnésia eufórica, numa nação em coma.

Por muito tempo ostentando o título de país do futebol, a simbologia verde e amarela conseguiu agregar pensamentos, atitudes e valores sócio-cultural-econômicos em torno desse esporte, fortalecendo laços de amizades, cumplicidade e união durante curto período. A Copa do Mundo realizada no país em 2014 demonstrou a estima do brasileiro por essa prática esportiva e pela luxúria do evento, mesmo que parcela considerável da população não tenha noção do quanto fora investido de recursos para sua realização e manutenção, muitos destes, públicos. Além disso, o calendário das edições do mundial acaba coincidindo com as eleições para governadores, deputados, senadores e presidente, corroborando para que estes se esforcem sobremaneira para estear e financiar o entretenimento coletivo, enaltecendo o ser patriótico de uma sociedade igualitária (ao menos teoricamente), mesmo sustentando discursos de crise financeira.

Ao que parece, a ocorrência dessa disputa em ano de eleições nacionais, resulta numa válvula de escape para os legisladores apaziguarem um desdém cívico evidente, transcorrido os quatro anos de mandato. Enquanto a maioria abastarda enaltece jogadores milionários, hospedados nos melhores hotéis e consumindo banquetes saudáveis, em frente à televisão adquirida em várias parcelas, os políticos ludibriam oportunamente o povo festivo; o dinheiro público – contribuição trabalhada – escorre pelo ralo, com muitas finalidades, menos a aplicação nos setores que beneficiem e contribuem para a equidade social. Entretanto, a máxima dessa relação entre concidadãos e Estado está ancorada nas alíneas descritivas da nação brasileira de ser um povo alegre, mesmo nas adversidades.

Aliás, a anuência observada em eventos comemorativos e que evidenciam a satisfação existencial demonstra a fragilidade de cada indivíduo diante dos infortúnios ao qual transita suas escolhas, seja no legislativo ou no executivo. A euforia, característica de momentos de frivolidade, causa a ilusória sensação de bem estar comunal. Ou seja, o conveniente e apropriado apontam para contentar-se com o que possui, usufruindo das condicionantes oferecidas pelo Estado, se e quando assim for. Contudo, é constitucional que o poder emana do povo. Porém, o estado amnésico bloqueia a capacidade de reação-reflexão-ação, em ocasiões de êxtase alegórico patrocinado por grupos políticos e diversas mídias (in)formativas, cabendo ao próprio sujeito selecionar, internalizar e, de posse disto, permanecer feliz ou lograr a sensatez.

O dualismo entre extroversão e decisão, pois, transfere para cada ser a responsabilidade do período (presente e futuro), já que as escolhas acometem e comprometem outras pessoas de iguais direitos, deveres, culpabilidade ou contribuição no cenário brasileiro. O patriotismo é essencial, todavia, numa dosagem equilibrada que não comprometa a sanidade. Festejar para esquecer os problemas acaba fortalecendo estereótipos de politicagem, desejantes por oportunas épocas comemorativas para perpetuar o poder opressor, sem nada cometer, sem querer fazer. A Copa não é nossa. O grito de gol será momentâneo. Mas o brado retumbante e solícito em prol de um país melhor para todos, esse sim, ecoará pela eternidade. Acorda Brasil!

Assine o Portal

Receba as últimas notícias de Tailândia e região.

Você pode gostar de ver