Início Opinião Mizael Carvalho Brado retumbante! Por Mizael Carvalho

Brado retumbante! Por Mizael Carvalho

8 Leitura min
0
0
86

O campeonato mundial de seleções, realizado de quatro em quatro anos pela FIFA e que desperta uma explosão de sentimentos nas pessoas, teve início no último dia quatorze – o país anfitrião desta edição é a Rússia. No caso do Brasil, coincidentemente, o evento acontece em ano eleitoral – escolha dos representantes do legislativo e executivo das esferas estaduais e federais – que provoca no povo brasileiro, ao mesmo tempo, o patriotismo sensorial e uma amnésia eufórica, numa nação em coma.

Por muito tempo ostentando o título de país do futebol, a simbologia verde e amarela conseguiu agregar pensamentos, atitudes e valores sócio-cultural-econômicos em torno desse esporte, fortalecendo laços de amizades, cumplicidade e união durante curto período. A Copa do Mundo realizada no país em 2014 demonstrou a estima do brasileiro por essa prática esportiva e pela luxúria do evento, mesmo que parcela considerável da população não tenha noção do quanto fora investido de recursos para sua realização e manutenção, muitos destes, públicos. Além disso, o calendário das edições do mundial acaba coincidindo com as eleições para governadores, deputados, senadores e presidente, corroborando para que estes se esforcem sobremaneira para estear e financiar o entretenimento coletivo, enaltecendo o ser patriótico de uma sociedade igualitária (ao menos teoricamente), mesmo sustentando discursos de crise financeira.

Ao que parece, a ocorrência dessa disputa em ano de eleições nacionais, resulta numa válvula de escape para os legisladores apaziguarem um desdém cívico evidente, transcorrido os quatro anos de mandato. Enquanto a maioria abastarda enaltece jogadores milionários, hospedados nos melhores hotéis e consumindo banquetes saudáveis, em frente à televisão adquirida em várias parcelas, os políticos ludibriam oportunamente o povo festivo; o dinheiro público – contribuição trabalhada – escorre pelo ralo, com muitas finalidades, menos a aplicação nos setores que beneficiem e contribuem para a equidade social. Entretanto, a máxima dessa relação entre concidadãos e Estado está ancorada nas alíneas descritivas da nação brasileira de ser um povo alegre, mesmo nas adversidades.

Aliás, a anuência observada em eventos comemorativos e que evidenciam a satisfação existencial demonstra a fragilidade de cada indivíduo diante dos infortúnios ao qual transita suas escolhas, seja no legislativo ou no executivo. A euforia, característica de momentos de frivolidade, causa a ilusória sensação de bem estar comunal. Ou seja, o conveniente e apropriado apontam para contentar-se com o que possui, usufruindo das condicionantes oferecidas pelo Estado, se e quando assim for. Contudo, é constitucional que o poder emana do povo. Porém, o estado amnésico bloqueia a capacidade de reação-reflexão-ação, em ocasiões de êxtase alegórico patrocinado por grupos políticos e diversas mídias (in)formativas, cabendo ao próprio sujeito selecionar, internalizar e, de posse disto, permanecer feliz ou lograr a sensatez.

O dualismo entre extroversão e decisão, pois, transfere para cada ser a responsabilidade do período (presente e futuro), já que as escolhas acometem e comprometem outras pessoas de iguais direitos, deveres, culpabilidade ou contribuição no cenário brasileiro. O patriotismo é essencial, todavia, numa dosagem equilibrada que não comprometa a sanidade. Festejar para esquecer os problemas acaba fortalecendo estereótipos de politicagem, desejantes por oportunas épocas comemorativas para perpetuar o poder opressor, sem nada cometer, sem querer fazer. A Copa não é nossa. O grito de gol será momentâneo. Mas o brado retumbante e solícito em prol de um país melhor para todos, esse sim, ecoará pela eternidade. Acorda Brasil!

Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais por Josenaldo Jr.
Carregar mais em Mizael Carvalho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *